Mas não se engane, pois a época do meu desespero já passou. A coragem desistiu de mim. Sou um homem conformado. Espero o tempo. Depois que me aposentei passei contar o tempo diferente, pois quando se é jovem contamos o quanto já vivemos, agora só conto o quanto me resta de vida. Eu não acredito mais em Deus. Também não sou pagão, sou religioso. No entanto, não acredito em Deus, mas eu o amo. O senhor compreende isso? Com toda a minha força, eu digo que o amo. Seria capaz de entregar minha vida a Ele. Deus é nome que a gente empresta para o que não sabemos. Toda a morte é um pedaço de Deus, eu sei e aceito. Deus não envelhece por isso não conhece a dor. Só os velhos sofrem com a falta de eternidade. Talvez quando o senhor voltar aqui novamente já não vou estar. A velhice é castigo, pois somos privados de tudo: Primeiro começa com uma canseira nos pulmões, uma fraqueza nas pernas. E num outro dia você vai ao banheiro e percebe que tem dificuldade de urinar. Num outro dia a visão falha de vez e enxergamos mal para sempre. Num outro dia temos que parar de beber, de comer doces. Num outro as mulheres desistem de nós. Em seguida, começa o aprendizado das humilhações. Envelhecer faz a gente engolir desaforos. A humilhação da aposentadoria, falo de toda essa papelada que o governo pede e que nunca dá certo. O tempo avança, até que um dia, depois de anos na fila, entre o sol e a chuva a gente consegue receber o nosso salário. É por tudo isso que, às vezes, eu não concordo com a vida. Discordo dela até o fim. Ninguém escapa do peso de viver. Agora, preste atenção: essa minha história não é para você, não é para ninguém, mas é para todos. Pois, mesmo que o senhor não estivesse aí me escutando, essa minha vida de palavras tinha de existir, o senhor entende? Tinha de existir. E antes que o senhor pergunte o motivo das minhas palavras tristes, eu vou lhe adiantando: Amei errado.
Mas, antes mesmo que o senhor me julgue eu lhe pergunto uma coisa: existe um amar certo? Fui injusto. Mas existe justiça no amor? Às vezes, paro meu olho naquele relógio... É, eu sei, está parado, não funciona. Não tem mais jeito. Foi o tempo quem matou ele. Um relógio é sempre uma ilusão, pois ele acha que pode mandar no tempo, mas lhe garanto: o tempo é sempre maior que um ponteiro. No entanto, se o senhor se achegar mais pertinho dele, vai notar que ele parou de propósito, por pura teimosia. Parou porque se recusou a contar... É danado este relógio. Na verdade, foi o tempo que desistiu dele. Este relógio ilude os atrasos. Ele aprendeu a doer o tempo e a medir o eterno. Sim, o eterno é medível. O eterno cabe na infância de Deus. Parado, assim, foi o jeito que ele encontrou de vergar as eras. Foi minha mulher quem me deu este relógio. Nunca vou permitir que toquem nele, pois ele é só o que me resta. Na verdade, não me importo com este relógio. Não gosto de guardar objetos, como já disse, porém o que me importa, é o protesto dele. Sei que isso pode parecer loucura, mas na velhice a gente não precisa mais se preocupar com a lucidez, na velhice a gente desaprende a mentir, a verdade fica mais próxima. Preciso dizer que quando minha mulher morreu, sequei por dentro, pois chorei tudo que havia em mim. Conheci o deserto e tive de endurecer. Agora não sei mais chorar. Por isso me acostumei a inventar lágrimas, embora eu saiba que lágrimas a gente não inventa, a gente nasce.
Agora, se o senhor me permite, eu preciso lhe contar como foi que conheci minha mulher. Isso é para o senhor entender bem porque gosto de guardar palavras.

