segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

Sobre ventos e flores

Sobre ventos e flores

O silêncio migra para outro silêncio
Enquanto uma flor vence um furacão
Vence, porque suas raízes já haviam
Aprendido a amar a terra

E toda a raiz sabe a vida até o fundo

Porém, cada silêncio é uma palavra condenada

As flores não conhecem o tempo
Por isso resistem com sua beleza
Aos ventos fortes e mordazes

Sim, querido Drummond, outra flor nasceu na rua

Uma flor difícil
Compreendida apenas pelos pássaros
Ou por uma brisa à beira mar

domingo, 7 de dezembro de 2008

Bondade

Bondade

Há dias em que acordo
Com uma estranha ternura
Pelas pessoas
Uma ternura tão ingênua
Que passo a crer em todas elas
Como se todas fossem capazes
De gestos benevolentes e doces

Como se todas fossem capazes
De amar um oceano inteiro
Mesmo sem compreendê-lo

Há dias em que vida é tão vasta
Que todos os medos se perdem pelos bosques
E um caminho feito de terra e céus
São inventados por pessoas bondosas

E há os dias como estes
Em que um céu estrelado
Guarda meu sono
Enquanto a bondade do mundo
Trabalha meu destino

sábado, 6 de dezembro de 2008

Sexta e sábado

Forasteiro

Estou vindo de um lugar que não há mais
Um lugar onde as mulheres
Eram vestidas de sol
E os homens fechavam os olhos
Para senti-las passar

De onde eu venho não há solidão
E o tempo é algo tão longínquo
Quanto qualquer instante
Desenhado no horizonte

De onde eu venho
Cada lágrima tecida
Comove todos os homens e todas as mulheres
E os velhos por um momento
Deixam suas memórias
Para reconhecer um pouco mais de tristeza




Alma

O poema é a morada
Das minhas angustias
A história da minha poesia
Está submersa nas almas
De todos os homens
E de todas as mulheres

Meus poemas são memórias

E a memória está sempre ameaçada pelo tempo

No entanto, a memória se defende
Inventando passados

Imaginando vestígios
Driblando verdades

Mas a verdade só é
O caminho que vou imaginando

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

Ernesto Sabato

Ernesto Sabato

Terminei de ler o livro “a resistência” de Ernesto Sabato e saí com a sensação que a melhor forma de viver é resistir. Mais do que um velhinho dando lições de moral, Sabato com seus 90 anos se mostra lúcido e vigoroso ao resistir com palavras à tempos sombrios como o que vivemos. Sabato resgata valores, a experiência, a sabedoria e o amor pela vida. Desde o seu livro “Sobre heróis e tumbas” que Sabato não me comovia. Peço que prestem atenção neste trecho de “A resistência”:

“Esqueci grandes trechos da vida e, em compensação, ainda palpitam em minhas mãos os encontros, os momentos de perigo e o nome daqueles que me resgataram das depressões e amarguras. Também o de vocês que acreditam em mim, que leram meus livros e me ajudarão a morrer”

Aproveito este trecho para agradecer as poucas pessoas que têm lido e acompanhado meus poemas, parafraseando Sabato:

“Ainda palpitam nos meus olhos os encontros, os momentos difíceis, o nome daqueles que abriram a porta do quarto, acenderam a luz e me resgataram das amarguras. E também o de vocês que acreditam em mim, que leram meus poemas e me ajudarão a viver”

Obrigado!



Solidões


Cada pessoa carrega
Uma solidão diferente

Existe a solidão necessária
Aquela que nos faz
Uma Espécie de ilha
E assim tateamos nossos limites
Até sabermos
Onde a terra finda e o mar rebenta

Mas há a solidão de doer
Aquela que dói nos ossos
E desta que estou a falar
Do peso da ausência
Que as pessoas carregam nos ombros
E nos olhos
Quando caminham caladas e remotas

Curo minhas ausências
Prestando atenção
Na solidão dos outros
E na minha também

Só Deus tem direito a solidão

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

Procura

Procura

O que procuramos
Não está no tempo
Nem nos aços dos espelhos

O que procuramos está sendo construído
Está sendo imaginado por uma
Força bruta e delicada
Às margens de um rio

Mas o tempo não é nosso
É das palavras e das coisas

A metáfora me conhece antes de mim

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Chuva fria

Chuva fria

Hoje uma chuva fria
Me fez prestar mais atenção
Nos gestos dos outros
E também no modo como as pessoas
Se protegem dos pingos

Dos ventos

Elas encolhem os ombros
Fecham os olhos
Como se buscassem abrigo
Dentro de si mesmas

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

Sustento

Sustento

Evocar a poesia é um pacto com a solidão

A presença difícil de um poema
Me conforta

Ou me torna impossível

Mas um poema é tão vasto
Que pode caber
Dentro de um coração partido

Porém, mantenhamos calma

O universo está por um fio
Mas o céu pode ainda sustentá-lo