sexta-feira, 14 de novembro de 2008

Isaura


Para Ondjaki e Luís Bernardo Honwana
Isaura
Isaura,
Pousa também teus olhos
Nas chagas do mundo
Depois concede teu abraço triste
No azul opaco e profundo
Que paira nos olhos desta vida
Empresta tua singeleza
E enlaça novamente
Um cão tinhoso
Coteja uma lágrima
Nesta terra fria
E ressuscita um cão sonhoso

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Sonho

Sonho

"Como podemos amar os outros?"

Assim resvala uma pergunta nítida
como uma chuva fria
Em uma pele quente

A pergunta vem dentro de um
Som exato que transpassa
os ouvidos da noite
Acompanhada de uma lâmina
afiada por Deus

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Caminho

Caminho

Caminho entre a calçada
E o meio fio
Versos atrás de mim
Me acompanham
Mas nenhum deles
Me ultrapassa
E se revela para mim
Então tenho de olhar para trás
Mas olhar para trás
É descuidar do caminho

Tropeçar numa pedra
Pode apagar uma intuição
Porém me faz levantar mais lúcido do chão

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Prece

Prece

Senhor, ergui minha vida
Nos passos da honra

Meus passos foram celestes e serenos
Como uma carreira de formigas
Debrucei-me sobre as paragens da incerteza
E nunca, em momento algum,
Levantei um asco contra o céu

Mas agora, Senhor,
Vai morrendo em mim, à mingua,
Um pedaço do mundo
Cansei-me dos caminhos dignos
E da fome saciada pelos bons

Senhor, aponta-me
Os subúrbios da alma
Onde eu possa aprender
Os gestos dos intrusos
E a arrogância dos sensatos

Quero o amor das pedras

Quero o martírio da paciência
Numa fogueira desolada

Quero ser o juiz como Xangô

Quero inquirir a existência com a altivez
De uma espada empunhada
Pelo povo da noite

Perdoa- me, Senhor, pelos gestos
Atrozes que deixei de cometer
Dê-me uma existência nova
E permita que eu sente ao lado dos trapaceiros
Os mesmos que enganaram a morte

Permita, Senhor, que um som partido
Me conduza pelos terreiros da vidência
E que eu seja pronunciado ao amanhecer
Apenas com as trombetas do silêncio

Mostra-me, Senhor, a outra face do mundo
A que perjura
A que difama

Pela língua dos que mentem
Nascerão orquídeas esfaceladas
Onde uma chuva bondosa
Regará a velhice de suas pétalas

Senhor, ata-me ao início das águas
E conta-me o que há em cada lágrima de Oxum

Abre meus caminhos

Numa relva não há trilhas

Entre a encruzilhada
E o terreiro
Se mede a idade do tempo

A ilha, como dissestes, é o homem
Atormentado pelo galope de viver

Senhor, abandona-me a madruga
Num sonho de Morfeu

Escuta-me um instante

Orfeu negro me acompanha nesta prece

Senhor, leva-me pelos bosques
E deixa-me ouvir a razão dos injustos

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Diferenças

Diferenças

Todo o silêncio é diferente

O silêncio da pedra é permanência
O silêncio do mar é ilusão
O silêncio de Deus é a sua obra

Às vezes, o silêncio
Sangra as vozes estilhaçadas

Um grito assassinado
Dorme nos lábios mordidos

Só os dentes sabem ranger o silêncio

Todo o silêncio é veloz
Como o lampejo de uma chama

domingo, 9 de novembro de 2008

Vento encilhado

Vento encilhado

Encilhar o vento
E cavalgar nele as eras
E também as idades que não se contam

Domar o vento é uma forma de existir

Dentro dele ou fora dele
O mundo ainda gira
Conforme a bondade do tempo

Num vento pode-se cavalgar a velhice de um ponteiro

Que tempo também envelhece
Agindo nas palavras

sábado, 8 de novembro de 2008

Trajeto

Trajeto

Meu arcabouço de palavras
Se abre quando a claridade
Se movimenta

A nitidez da névoa
Exerce uma vidência
No destino em que piso

Como o mar
Que já sabe o trajeto da praia

Meu destino é a metáfora

Meu trajeto são palavras ao longe
Que retumbam num coração selvagem