sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Barco à deriva

Barco à deriva

Minha poesia é um barco à deriva
Abandonado pelo tempo
E abraçada pelo mar

Sou um naufrago
Aplacado pelo cantos das sereias

As ondas quebradas
Passaram a ser a minha morada

A noite me guarda
Entre seus dedos

"Netuno, conta-me
Um segredo?"

"Onde mar foi inventado?"

"Em que lugar do oceano não se encontra o medo?"

"O que sonham os peixes?"

Minha poesia é um barco à deriva
Como a solidão aberta em águas

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Ao começo

Ao começo

Para chegar ao começo
Preciso nutrir meus olhos
Com a força arcaica das pedras

E assim desgirar o mundo
Até as profundezas da criação

Depois, desterrar a larva das montanhas
E pisar na terra mais antiga que o chão

Doer os ossos do princípio

É preciso ter coragem para voejar o começo
A arqueologia do mundo
É um alma tombada pelo tempo

Volto ao início
Com uma palavra renascida

Regressar é a minha condição

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Diante de ti

Para Deisi
Diante de ti

Diante de ti a tristeza emudece
Amarguras naufragam
Beija-flores provocam revoluções e metáforas
Nos jardins

Sete lágrimas de felicidade
Te recebem

Asas do teu sorriso
Secam o rosto do tempo
Semeiam auroras

Lavram o infinito

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Sonata ao luar

Sonata ao luar

A vida é um assombro
Dos meus espantos nascem pássaros

E pássaros são sempre eternos
Como uma sonata ao luar

Toda vez que um pássaro voa
Um tempo novo atravessa as idades

Restabelecendo sobre o mar
Um breve rumor de eternidades

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Último reduto

Último reduto

Tenho uma rotina nos olhos:
Vasculhar beleza pelos cantos

O céu para mim é um segredo revelado

Lucidez é ouvir um trovão

Deus é uma coragem minha
Que ainda não sei bem

Meu desafio é ser um santo sem Ele
Tornar-me sagrado nesta terra

E o sagrado está na sua ausência

A poesia é meu último reduto
A última forma divina

domingo, 2 de novembro de 2008

Caverna

Caverna

Quando escrevo uma tristeza
É porque meus sentidos vão bem

Poemas não sofrem
Quem sofre são os homens
E os seus delírios

Uma dor não pode ser publicada

Quando escrevo uma tristeza
Tateio Platão

Vou tateando a caverna
Até esbarrar numa palavra

Depois saio a cata
De um isqueiro e de uma vela
Que me ilumine paredes e versos

sábado, 1 de novembro de 2008

Palavra definitiva

Palavra definitiva

Minha palavra é definitiva
Somente neste instante

Amanhã serei outro

E serei o mesmo também

A palavra é raiz movente

Meu regresso começa na partida

Só vejo quando não olho

Olhar é ilusão

Sentir é um modo de estar vivo

Toda a palavra é definitiva
Quando reconhece o instante